Por que o protocolo vem antes da busca: a vacina contra o viés de seleção

Existe uma tentação silenciosa em toda revisão de literatura: ajustar o objetivo, ou os critérios, conforme os resultados vão aparecendo. Ninguém faz isso por má-fé. Acontece aos poucos, um critério aqui, uma exclusão ali, e o resultado é uma revisão que confirma o que o autor já pensava.

O protocolo prévio é a vacina contra essa distorção. Fixar o objetivo antes de qualquer busca é o que separa a revisão sistemática da revisão narrativa: o escopo vem primeiro, e a busca é desenhada para respondê-lo, e não o contrário.

Os três pilares que a Fase 1 fixa

O primeiro é o recorte temporal, com justificativa histórica para a janela escolhida. O segundo é a pergunta PICO, delimitada sem ambiguidade. O terceiro é a triangulação de bases: associar repositórios complementares, como Scopus, PubMed e SciELO, para não herdar o viés geográfico ou temático de uma fonte única.

Escolher as bases nesta fase, e não durante a coleta, tem uma razão técnica além da metodológica. Cada base tem sintaxe e operadores próprios, então a estratégia de busca da fase seguinte só pode ser traduzida corretamente se as fontes-alvo já estiverem definidas.

Oito seções, três diretrizes

No Tykyra esses pilares viram um protocolo de oito seções, alinhadas a SPIRIT, PRISMA-P e PROSPERO: da identificação e da fundamentação até os complementos PICO e a avaliação de viés.

A fixação também é protegida por uma regra de edição. No plano Gratuito, pesquisa e protocolo só podem ser editados livremente até avançarem no fluxo. Poder editar o escopo a qualquer momento comprometeria justamente a rastreabilidade que o protocolo existe para garantir.

O registro prévio como exigência editorial

Revistas como Lancet, BMJ e as publicações do IEEE pedem comprovante de registro prévio no PROSPERO ou no OSF. O protocolo preenchido aqui não é formulário interno: é a base do que será exportado para o registro, ou direto para a seção de métodos do artigo.

Vale ainda um rito que revisões de alto impacto seguem antes de avançar: alinhar o protocolo com o orientador ou coordenador, validar com pares e especialistas da área, e obter aprovação formal. Revisão por terceiros nesta fase custa horas; corrigir o protocolo depois que a coleta avançou custa a coleta inteira.

O histórico de versões fecha o argumento. Com ele é possível demonstrar exatamente o que foi decidido antes da busca e o que foi ajustado depois, que é a rastreabilidade prospectiva esperada por quem vai avaliar o trabalho.

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Bruno Catão

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Bruno Catão B · A · S · C

Envolvido em projetos estratégicos na FIOCRUZ há mais de quinze anos e com passagem pela PwC como consultor sênior em PPM, Bruno decidiu consolidar e impulsionar seu conhecimento em soluções tecnológicas para mecanismos de gestão e pesquisa, como no caso do Tykyra e de outros sistemas do ecossistema da Inteligência Seneon. Mestre em Tecnologia de Imunobiológicos, PMP, Lean Six Sigma e autor de capítulos de livro e artigos científicos, ele assina cada sistema com o mesmo rigor metodológico.

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